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"Minha comida caga na sua"
é uma provocação, não um argumento. Mesmo que o prato com carne fosse mais gostoso para quem fala, a questão não é qual comida ganha um concurso de sabor, e sim o que aconteceu com quem virou comida. Além disso, a comparação é falsa: boa parte do que se come todos os dias já é vegano, e o sabor que se atribui à carne vem muito do sal, da gordura, da brasa e dos temperos.
Resposta curta
Pode até ser que você goste mais da sua comida. Mas a pergunta não é qual prato é mais gostoso, é se vale a vida de um animal. E, sinceramente, arroz, feijão, farofa, pão, macarrão, batata frita e quase todos os temperos do seu prato já são veganos.
Para crianças
Imagine que alguém diga: "Meu brinquedo é muito mais legal que o seu, então posso pegar o do seu amigo sem pedir." Ter um brinquedo legal não deixa ninguém fazer mal aos outros. Com a comida é igual. O que importa não é qual prato é mais gostoso, é se alguém precisou sofrer para ele existir.
"Se o melhor prato do mundo fosse de carne de cachorro, isso resolveria a questão?"
Como pode aparecer
"Minha comida caga na sua."
"Comida de verdade é a minha."
"Meu churrasco humilha sua salada."
"Imagina viver comendo grama." (que é J10)
"Você acha mesmo que tofu se compara a uma costela?"
"Carne é gostosa." (que é J11)
A versão mais forte
"Minha comida caga na sua. Enquanto você come alface, eu como picanha."
Versão mais forte (steelman):
- P1Comida existe para dar prazer, além de nutrir.
- P2Pratos com carne dão mais prazer do que pratos veganos.
- P3Abrir mão de um prazer maior sem necessidade é irracional.
- CLogo, comer carne é a escolha racional, e o vegano é que está perdendo.
P1 é verdadeira. P2 é discutível e varia de pessoa para pessoa. O problema principal está em P3, que trata o prazer de quem come como a única coisa em jogo.
O argumento é inválido como resposta ao veganismo: ele compara cardápios, enquanto a objeção vegana é sobre o dano a terceiros.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
A frase mistura duas disputas diferentes:
Disputa O que está em jogo Quem decide Qual comida é mais gostosa? O prazer de quem come O gosto de cada um Comer animais é justo? A vida e o sofrimento de outro ser Razões, não paladar O veganismo não alega que a comida vegana é sempre mais gostosa. Alega que o prazer de quem come não justifica o dano a quem é comido.
- b
Onde o argumento quebra
1. Prazer não é licença para causar dano.
Em nenhum outro contexto aceitamos "é mais gostoso" ou "é mais divertido" como justificativa para prejudicar alguém (J11).
2. A comparação é falsa.
Muito do que se come todo dia já é vegano: arroz, feijão, pão, massas, frutas, legumes, batata, farofa, a maioria dos molhos e temperos. A comida vegana não é uma culinária à parte; é a maior parte da culinária de sempre, sem o animal.
3. Boa parte do sabor não vem do animal.
Sal, gordura, defumação, caramelização na brasa e temperos respondem por muito do que se associa ao sabor da carne, e são reproduzíveis com ingredientes vegetais.
4. Paladar é hábito.
Preferências alimentares se formam pela exposição repetida e mudam com ela. Quem diz que a comida vegana é ruim muitas vezes provou pouco, ou provou só versões feitas sem cuidado.
5. É uma provocação, e provocações revelam a falta de argumento.
Quando a conversa passa da razão para a zombaria, quase sempre é porque a pergunta moral ficou sem resposta.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Piazza et al., 2015 "Gostoso" (nice) é uma das quatro justificativas mais comuns para comer carne Os "4Ns": natural, normal, necessário e gostoso Brehm, A Theory of Psychological Reactance (1966) Quando sentem a liberdade ameaçada, as pessoas reagem reafirmando o comportamento Ajuda a entender o tom de desafio da frase Minson e Monin, 2012 Quem come carne tende a reagir contra vegetarianos por esperar ser julgado A provocação como defesa antecipada - d
A melhor réplica: o prazer também é um interesse legítimo
A versão mais séria diz: o prazer de comer é parte importante de uma vida boa, ligado à cultura, à memória e ao convívio. Pedir que alguém abra mão disso é pedir muito.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
O prazer não precisa desaparecer.
A troca é de ingredientes, não do prazer de comer. Cultura, memória e convívio continuam (D8).
Interesses legítimos também têm limites.
O prazer de quem come é um interesse real, mas pequeno diante do interesse de outro ser em não sofrer e não morrer.
A desproporção decide.
De um lado, a diferença entre dois pratos; do outro, uma vida inteira.
- f
De volta à questão moral
Mesmo que a provocação fosse verdadeira e o prato com carne fosse mais gostoso para quem fala, isso só responderia a uma pergunta de gosto. A pergunta moral continua aberta: o prazer de um prato justifica o que é feito com o animal?
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Mudança de questão
Falsa dicotomia
Epistemológico
A evidência sustenta?
Generalização a partir de pouca experiência
Moral
O critério é coerente?
Prazer como justificativa
Vieses
Reatância psicológica
Sentir a escolha ameaçada leva a reafirmá-la com ênfase
Brehm, 1966
Depreciação do "bonzinho"
Ridicularizar o vegano alivia a sensação de ser julgado
Extrapolações
O princípio testado é: "se minha opção é mais prazerosa, ela é a certa".
Se valesse para…Carne de cão ou de gatoToque para ver
Seria justificável se fosse mais saborosa
Quase ninguém aceita
Se valesse para…Diversões que machucamToque para ver
Seriam aceitáveis se fossem mais divertidas
Rejeitamos quando há vítima
Se valesse para…Qualquer produtoToque para ver
O mais prazeroso seria sempre o mais justo, independentemente de como foi feito
Ninguém defende isso para trabalho escravo
Contradições
Arroz, feijão e pão não deixam de ser gostosos por não terem animal.
Ninguém defenderia comer carne de cachorro por ser saborosa.
E o tempero é vegetal.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Comer é um prazer, e esse prazer importa. Quem quer convencer alguém a mudar de alimentação faz bem em mostrar que a comida vegana pode ser deliciosa, e não um sacrifício triste.
Mas
Mas sabor não é o critério da justiça. Uma comida pode ser saborosa e ainda assim custar a vida de alguém que não queria morrer.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Referências
Psicologia
- Rationalizing meat consumption. The 4Ns. *Appetite*, 91.
- A Theory of Psychological Reactance. Academic Press.
- Do-gooder derogation. *Social Psychological and Personality Science*, 3(2).