Início / E. Relativismo, liberdade e evasões / Parte DIR
"Ele come carne, mas é uma pessoa boa"
a crítica do veganismo é a um ato, não ao caráter de quem o pratica. Pessoas generosas, honestas e carinhosas também participam de práticas injustas quando elas são normais na sua época. Dizer que alguém é bom não responde à pergunta sobre o que acontece com o animal, e a bondade dessa pessoa é justamente o que torna provável que ela mude quando enxergar o problema.
Resposta curta
Ninguém está dizendo que ele é mau. Gente boa também participa de coisas erradas quando elas são normais e ninguém questiona. A pergunta não é sobre o caráter dele, é sobre o que acontece com o animal. E é justamente por ser uma pessoa boa que ele provavelmente se importaria, se olhasse para isso.
Para crianças
Uma pessoa pode ser muito boa e mesmo assim fazer uma coisa que machuca alguém sem perceber. Às vezes ninguém explicou para ela, ou todo mundo em volta faz igual. Isso não quer dizer que ela é má. Quer dizer que ela pode aprender. E, como é uma pessoa boa, quando entender que o porquinho sofre, é bem provável que queira parar.
"Se ele é uma pessoa boa, você acha que ele concordaria com o que acontece com os animais se visse de perto?"
Como pode aparecer
"Conheço gente ótima que come carne."
"Minha avó come carne e é a pessoa mais bondosa do mundo."
"Você está chamando todo mundo de mau?"
"Vegano acha que é melhor que os outros." (que leva a L1)
"Então 90% da humanidade é cruel?"
"Uma moral que condena quase todos os agentes virtuosos provavelmente está errada."
"Eu sou uma boa pessoa, faço doações, ajudo os outros."
A versão mais forte
"Meu pai come carne e é a pessoa mais honesta que eu conheço. Você está dizendo que ele é mau?"
Versão mais forte (steelman):
- P1Uma pessoa boa, de modo geral, não faz coisas gravemente erradas de forma rotineira.
- P2Muitas pessoas reconhecidamente boas comem carne todos os dias.
- C1Logo, comer carne não deve ser gravemente errado.
- C2E quem diz que é está acusando de maldade pessoas que não merecem.
P2 é verdadeira, e é importante dizer isso com todas as letras. O problema está em P1, que confunde ter bom caráter com acertar em tudo, e em C2, que confunde criticar uma prática com condenar pessoas.
O argumento é válido, mas não é sólido: P1 é desmentida por toda a história moral, em que gente boa participou de injustiças aceitas pelo costume.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento troca uma pergunta por outra:
Pergunta Sobre o quê Quem responde Essa pessoa é boa? O caráter de alguém, no conjunto da vida Quem a conhece Esse ato prejudica alguém? O que acontece com a vítima Os fatos sobre o animal As duas são independentes. Uma pessoa bondosa pode praticar um ato que causa dano, e uma pessoa desagradável pode praticar um ato correto. O veganismo faz uma pergunta do segundo tipo.
- b
Onde o argumento quebra
1. Bom caráter não garante atos certos.
A história moral está cheia de pessoas gentis, honestas e caridosas que participaram de práticas hoje vistas como injustas, porque elas eram normais e ninguém à sua volta as questionava. Isso não as tornava monstros; tornava a prática invisível para elas.
2. A crítica é à prática, não à pessoa.
Dizer que um ato é errado não é dizer que quem o pratica é mau. É possível agir errado por desconhecimento, por hábito ou porque o ambiente torna o ato automático. A filosofia distingue há muito tempo a avaliação do ato da avaliação do agente.
3. O animal não é afetado pelo caráter de quem come.
Para o porco no abatedouro, não faz diferença se o consumidor final é generoso ou egoísta. O dano é o mesmo.
4. A bondade da pessoa é um motivo de esperança, não de defesa.
Se ela se importa com os outros, é provável que se importe também com os animais quando enxergar o que acontece. Muita gente boa já mudou exatamente por isso.
5. O argumento costuma aparecer como defesa antecipada.
Pesquisas sobre a chamada depreciação do "bonzinho" mostram que pessoas tendem a se sentir julgadas por quem segue uma posição moral diferente, mesmo quando ninguém as acusou. "Você está me chamando de mau?" muitas vezes responde a uma acusação que não foi feita.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Minson e Monin, 2012 Quem come carne tende a esperar ser julgado moralmente por vegetarianos, e isso aumenta a rejeição a eles Social Psychological and Personality Science, 3(2) Thorndike, 1920 Efeito halo: a impressão geral sobre alguém contamina a avaliação de traços e atos específicos Journal of Applied Psychology, 4 Piazza et al., 2015 "Normal" é uma das quatro justificativas mais usadas para comer carne Os "4Ns" - d
A melhor réplica: uma moral que condena quase todo mundo é suspeita
A versão mais séria diz: se uma teoria moral conclui que quase todas as pessoas, incluindo as mais admiráveis, fazem algo gravemente errado todos os dias, isso é evidência contra a teoria. Nossos juízos sobre quem é bom seriam mais confiáveis do que um argumento abstrato.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Esse teste teria falhado antes.
Em várias épocas, quase toda a sociedade, inclusive seus membros mais respeitados, aceitava práticas que hoje reconhecemos como injustas. Se a regra fosse "o que os bons fazem não pode ser grave", nenhuma dessas práticas teria sido corrigida.
O argumento não é abstrato.
Ele parte de fatos que quase todos aceitam: animais sentem dor e medo, e causar sofrimento sem necessidade é errado. A conclusão vem de juízos comuns, não contra eles.
Condenar o ato não é condenar o agente.
A teoria não precisa dizer que essas pessoas são más; basta dizer que estão enganadas sobre uma prática, o que é compatível com elas serem admiráveis.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Mudança de questão
Espantalho
Epistemológico
A evidência sustenta?
Efeito halo
Moral
O critério é coerente?
Confusão entre agente e ato
Vieses
Depreciação do "bonzinho"
Sentir-se julgado gera reação defensiva contra quem nem acusou
Racionalização pelos 4Ns
"É normal" funciona como prova de que não há nada de errado
Extrapolações
O princípio testado é: "se pessoas boas fazem algo rotineiramente, isso não pode ser errado".
Se valesse para…Práticas injustas do passadoToque para ver
Seriam aceitáveis enquanto pessoas respeitadas as praticassem
Ninguém aceita
Se valesse para…Preconceitos comunsToque para ver
Piadas ou exclusões feitas por gente simpática não seriam problema
Reconhecemos o dano mesmo assim
Se valesse para…Hábitos prejudiciaisToque para ver
Dirigir depois de beber seria aceitável se a pessoa fosse boa
O risco para os outros não muda
Contradições
A mesma pessoa admite que alguém querido pode ter preconceitos ou hábitos que prejudicam outros.
Se uma pessoa simpática nos prejudica, o prejuízo continua sendo prejuízo.
E isso pressupõe que o hábito anterior era um erro, mesmo de alguém bom.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta numa coisa importante: quem come carne não é mau por isso, e tratar pessoas como vilãs é injusto e contraproducente. A maioria das pessoas cresceu numa cultura em que comer animais é tão normal que a pergunta nunca apareceu. Defender os animais pede firmeza sobre a prática e generosidade com as pessoas.
Mas
Mas a bondade de alguém não muda o que acontece com o animal. E é exatamente porque tanta gente é boa que vale a pena fazer a pergunta.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois