Guia de Argumentação
Pelos Animais
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Início / E. Relativismo, liberdade e evasões / Parte DIR

E14

"Ele come carne, mas é uma pessoa boa"

A resposta em uma frase

a crítica do veganismo é a um ato, não ao caráter de quem o pratica. Pessoas generosas, honestas e carinhosas também participam de práticas injustas quando elas são normais na sua época. Dizer que alguém é bom não responde à pergunta sobre o que acontece com o animal, e a bondade dessa pessoa é justamente o que torna provável que ela mude quando enxergar o problema.

Resposta curta

Ninguém está dizendo que ele é mau. Gente boa também participa de coisas erradas quando elas são normais e ninguém questiona. A pergunta não é sobre o caráter dele, é sobre o que acontece com o animal. E é justamente por ser uma pessoa boa que ele provavelmente se importaria, se olhasse para isso.

Para crianças

Uma pessoa pode ser muito boa e mesmo assim fazer uma coisa que machuca alguém sem perceber. Às vezes ninguém explicou para ela, ou todo mundo em volta faz igual. Isso não quer dizer que ela é má. Quer dizer que ela pode aprender. E, como é uma pessoa boa, quando entender que o porquinho sofre, é bem provável que queira parar.

Devolva com uma pergunta

"Se ele é uma pessoa boa, você acha que ele concordaria com o que acontece com os animais se visse de perto?"

Como pode aparecer

"Conheço gente ótima que come carne."
Conversa cotidiana
"Minha avó come carne e é a pessoa mais bondosa do mundo."
Conversa cotidiana
"Você está chamando todo mundo de mau?"
Conversa cotidiana
"Vegano acha que é melhor que os outros." (que leva a L1)
Redes sociais
"Então 90% da humanidade é cruel?"
Pergunta retórica
"Uma moral que condena quase todos os agentes virtuosos provavelmente está errada."
Versão acadêmica
"Eu sou uma boa pessoa, faço doações, ajudo os outros."
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"Meu pai come carne e é a pessoa mais honesta que eu conheço. Você está dizendo que ele é mau?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1Uma pessoa boa, de modo geral, não faz coisas gravemente erradas de forma rotineira.
  2. P2Muitas pessoas reconhecidamente boas comem carne todos os dias.
  3. C1Logo, comer carne não deve ser gravemente errado.
  4. C2E quem diz que é está acusando de maldade pessoas que não merecem.

P2 é verdadeira, e é importante dizer isso com todas as letras. O problema está em P1, que confunde ter bom caráter com acertar em tudo, e em C2, que confunde criticar uma prática com condenar pessoas.

O argumento é válido, mas não é sólido: P1 é desmentida por toda a história moral, em que gente boa participou de injustiças aceitas pelo costume.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento troca uma pergunta por outra:

    PerguntaSobre o quêQuem responde
    Essa pessoa é boa?O caráter de alguém, no conjunto da vidaQuem a conhece
    Esse ato prejudica alguém?O que acontece com a vítimaOs fatos sobre o animal

    As duas são independentes. Uma pessoa bondosa pode praticar um ato que causa dano, e uma pessoa desagradável pode praticar um ato correto. O veganismo faz uma pergunta do segundo tipo.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Bom caráter não garante atos certos.

    A história moral está cheia de pessoas gentis, honestas e caridosas que participaram de práticas hoje vistas como injustas, porque elas eram normais e ninguém à sua volta as questionava. Isso não as tornava monstros; tornava a prática invisível para elas.

    2. A crítica é à prática, não à pessoa.

    Dizer que um ato é errado não é dizer que quem o pratica é mau. É possível agir errado por desconhecimento, por hábito ou porque o ambiente torna o ato automático. A filosofia distingue há muito tempo a avaliação do ato da avaliação do agente.

    3. O animal não é afetado pelo caráter de quem come.

    Para o porco no abatedouro, não faz diferença se o consumidor final é generoso ou egoísta. O dano é o mesmo.

    4. A bondade da pessoa é um motivo de esperança, não de defesa.

    Se ela se importa com os outros, é provável que se importe também com os animais quando enxergar o que acontece. Muita gente boa já mudou exatamente por isso.

    5. O argumento costuma aparecer como defesa antecipada.

    Pesquisas sobre a chamada depreciação do "bonzinho" mostram que pessoas tendem a se sentir julgadas por quem segue uma posição moral diferente, mesmo quando ninguém as acusou. "Você está me chamando de mau?" muitas vezes responde a uma acusação que não foi feita.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Minson e Monin, 2012Quem come carne tende a esperar ser julgado moralmente por vegetarianos, e isso aumenta a rejeição a elesSocial Psychological and Personality Science, 3(2)
    Thorndike, 1920Efeito halo: a impressão geral sobre alguém contamina a avaliação de traços e atos específicosJournal of Applied Psychology, 4
    Piazza et al., 2015"Normal" é uma das quatro justificativas mais usadas para comer carneOs "4Ns"
  4. d

    A melhor réplica: uma moral que condena quase todo mundo é suspeita

    A versão mais séria diz: se uma teoria moral conclui que quase todas as pessoas, incluindo as mais admiráveis, fazem algo gravemente errado todos os dias, isso é evidência contra a teoria. Nossos juízos sobre quem é bom seriam mais confiáveis do que um argumento abstrato.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Esse teste teria falhado antes.

    Em várias épocas, quase toda a sociedade, inclusive seus membros mais respeitados, aceitava práticas que hoje reconhecemos como injustas. Se a regra fosse "o que os bons fazem não pode ser grave", nenhuma dessas práticas teria sido corrigida.

    O argumento não é abstrato.

    Ele parte de fatos que quase todos aceitam: animais sentem dor e medo, e causar sofrimento sem necessidade é errado. A conclusão vem de juízos comuns, não contra eles.

    Condenar o ato não é condenar o agente.

    A teoria não precisa dizer que essas pessoas são más; basta dizer que estão enganadas sobre uma prática, o que é compatível com elas serem admiráveis.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Mudança de questão
Troca "o ato prejudica alguém?" por "a pessoa é boa?"
Espantalho
Atribui ao veganismo a acusação de que quem come carne é mau

Epistemológico

A evidência sustenta?

Efeito halo
Usa a boa impressão geral para julgar um ato específico

Moral

O critério é coerente?

Confusão entre agente e ato
Toma a virtude de quem faz como prova de que o feito é certo

Vieses

Efeito halo

A bondade geral da pessoa se estende ao que ela come

Thorndike, 1920

Depreciação do "bonzinho"

Sentir-se julgado gera reação defensiva contra quem nem acusou

Minson e Monin, 2012

Racionalização pelos 4Ns

"É normal" funciona como prova de que não há nada de errado

Piazza et al., 2015

Extrapolações

O princípio testado é: "se pessoas boas fazem algo rotineiramente, isso não pode ser errado".

Se valesse para…Práticas injustas do passadoToque para ver

Seriam aceitáveis enquanto pessoas respeitadas as praticassem

Ninguém aceita

Se valesse para…Preconceitos comunsToque para ver

Piadas ou exclusões feitas por gente simpática não seriam problema

Reconhecemos o dano mesmo assim

Se valesse para…Hábitos prejudiciaisToque para ver

Dirigir depois de beber seria aceitável se a pessoa fosse boa

O risco para os outros não muda

Contradições

Reconhece que gente boa erra em outros temas.

A mesma pessoa admite que alguém querido pode ter preconceitos ou hábitos que prejudicam outros.

Avalia atos sem olhar o caráter quando é vítima.

Se uma pessoa simpática nos prejudica, o prejuízo continua sendo prejuízo.

Admira quem mudou de hábito por razões morais.

E isso pressupõe que o hábito anterior era um erro, mesmo de alguém bom.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta numa coisa importante: quem come carne não é mau por isso, e tratar pessoas como vilãs é injusto e contraproducente. A maioria das pessoas cresceu numa cultura em que comer animais é tão normal que a pergunta nunca apareceu. Defender os animais pede firmeza sobre a prática e generosidade com as pessoas.

Mas

Mas a bondade de alguém não muda o que acontece com o animal. E é exatamente porque tanta gente é boa que vale a pena fazer a pergunta.

Conexões

Costuma vir antes

L1 Veganos são chatos e se acham superiores.A sensação de ser julgado vira defesa do caráter
D6 Todo mundo come.Se todo mundo faz, inclusive gente boa, não pode ser errado
E14este argumento

Costuma vir depois

E8 Eu amo os animais, mas...A pessoa boa também diz que ama os animais
E6 Ninguém é perfeito, faço o que posso.A bondade geral vira licença para não mudar
D1 Sempre fizemos isso.O costume explica por que gente boa não vê o problema

Referências