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"E se descobrirem que as plantas sentem?"
hoje não há evidência de que plantas sintam (A14). Mas, se um dia isso fosse descoberto, a conclusão não seria "então tanto faz comer animais". Seria o contrário: o critério da senciência passaria a incluir as plantas, e a forma de causar menos dano continuaria sendo comer plantas diretamente, porque os animais criados para consumo comem muito mais plantas do que nós comeríamos. A descoberta aumentaria o número de seres que contam; não diminuiria o peso dos que já contam.
Resposta curta
Hoje não há evidência de que plantas sintam. Mas, se um dia fosse descoberto, a melhor forma de causar menos dano continuaria sendo comer plantas, porque os animais que viram comida comem muito mais plantas do que nós comeríamos diretamente. A descoberta aumentaria o número de seres que contam; não tornaria aceitável explorar os que já sabemos que sentem.
Para crianças
Imagine que as plantas sentissem um pouquinho. Um porquinho, para crescer, precisa comer muitas plantas. Então, se a gente come o porquinho, as plantas que ele comeu também foram para a conta. Se a gente come as plantas direto, usa bem menos plantas. Mesmo nesse caso, comer plantas seria a escolha que machuca menos.
"Se as plantas sentissem, você escolheria a dieta que mata mais plantas ou a que mata menos?"
Como pode aparecer
"E se descobrirem que as plantas sentem?"
"Aí vocês vão comer o quê, pedra?"
"Quando provarem que a alface grita, quero ver o vegano."
"Se tudo sente, por que não comer carne?"
"Se a senciência vegetal for confirmada, o critério da senciência deixa de distinguir dietas."
"Plantas também sentem." (que é A14)
A versão mais forte
"E se amanhã a ciência descobrir que as plantas sentem? Aí vocês vão comer o quê?"
Versão mais forte (steelman):
- P1O veganismo se apoia no critério da senciência: quem sente não deve ser prejudicado sem necessidade.
- P2Se as plantas forem sencientes, comer plantas também causará dano a seres sencientes.
- P3Como precisamos comer algo, seria impossível evitar dano a seres sencientes.
- CLogo, o veganismo perderia o sentido, e comer animais não seria pior do que comer plantas.
P1 é verdadeira. P2 e P3 seriam verdadeiras nesse cenário hipotético. O problema está na conclusão: de "não dá para evitar todo dano" não se segue "tanto faz quanto dano se causa".
O argumento é inválido: a impossibilidade de zerar o dano não torna equivalentes todas as escolhas.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
O argumento depende de uma passagem que não se sustenta:
Passo O que afirma Situação Se plantas sentem, toda dieta causa dano Verdadeiro nesse cenário Já é verdade hoje em parte: toda dieta causa algum dano (H2) Se toda dieta causa dano, tanto faz qual escolher Falso Danos podem ser maiores ou menores Logo, comer animais é aceitável Não se segue A comparação de quantidades continua decidindo - b
Onde o argumento quebra
1. Hoje a hipótese não tem base.
Biólogos vegetais concluíram que plantas não possuem nem precisam de consciência: não têm neurônios, cérebro nem razão evolutiva para isso (A14). Discutir o cenário é útil como exercício, mas ele não descreve o mundo atual.
2. Mesmo no cenário, comer plantas causaria menos dano.
Cerca de 36% das calorias das lavouras do mundo vão para a ração animal, e só cerca de 12% dessas calorias chegam às pessoas como carne, leite e ovos. Comer animais significa consumir, indiretamente, muito mais plantas. Se as plantas importassem, comer animais seria o pior dos dois mundos.
3. Não poder zerar o dano não autoriza qualquer dano.
Também não dá para evitar todo acidente de trânsito, e ninguém conclui que tanto faz dirigir com cuidado ou embriagado. A ética de quem leva a senciência a sério sempre foi reduzir o dano, e não alcançar a pureza (L5).
4. O critério da senciência se fortalece, e não se enfraquece.
Ele acompanha a evidência: se ela mostrasse que plantas sentem, elas passariam a contar, como passaram a contar peixes, polvos e caranguejos à medida que as evidências cresceram. Um critério que se ajusta aos fatos é exatamente o que se espera de uma ética honesta.
5. Haveria graus a considerar.
Se plantas tivessem alguma forma de experiência, seria preciso estimar a probabilidade e a intensidade dela, como se faz com insetos (A15). Isso pediria cautela proporcional, e não indiferença.
6. O teste humano.
Quando se descobriu que mais grupos de pessoas eram capazes de sofrer do que se admitia, a conclusão correta foi estender a consideração a elas, e não concluir que o sofrimento de ninguém importa.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Taiz et al., 2019 Plantas não possuem nem precisam de consciência Trends in Plant Science, 24(8) Cassidy et al., 2013 36% das calorias das lavouras do mundo viram ração animal, e só 12% dessas calorias chegam à alimentação humana Environmental Research Letters, 8(3) Questão de Ética, vol. VI, cap. 21 Se plantas fossem moralmente consideráveis, comer animais continuaria sendo pior Base do ponto 2 Birch, The Edge of Sentience (2024) Propõe precauções proporcionais à evidência de senciência Oxford University Press - d
A melhor réplica: o veganismo perderia sua clareza
A versão mais séria diz: o atrativo do veganismo é a linha clara entre quem sente e quem não sente. Se plantas sentissem, essa linha sumiria, e o veganismo viraria uma conta complicada de quantidades, sem a força moral que tem hoje.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
A clareza nunca foi o fundamento.
O fundamento é não causar dano desnecessário a quem sente. Se a linha mudasse, a obrigação continuaria, apenas aplicada a mais seres.
A conta já existe hoje.
A conta continuaria favorecendo as plantas.
Mesmo no cenário mais complicado, comer plantas diretamente causaria menos dano do que comer quem as comeu.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Falácia do nirvana
Falsa equivalência
Epistemológico
A evidência sustenta?
Hipótese tratada como fato
Moral
O critério é coerente?
Ignorar quantidades
Vieses
Raciocínio motivado
Um cenário hipotético é usado para dispensar a mudança no presente
Literatura geral sobre cognição motivada
Paradoxo da carne
Diluir o critério alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los
Extrapolações
O princípio testado é: "se não dá para evitar todo dano, tanto faz quanto dano se causa".
Se valesse para…TrânsitoToque para ver
Tanto faz dirigir com cuidado ou embriagado, porque acidentes acontecem
Ninguém aceita
Se valesse para…MedicinaToque para ver
Tanto faz um tratamento com mais ou menos efeitos colaterais
Absurdo
Se valesse para…AlimentaçãoToque para ver
Tanto faz comer plantas ou quem comeu muitas plantas
É a conclusão do argumento
Contradições
Ninguém conclui que tanto faz dirigir com cuidado porque acidentes acontecem.
Se as plantas importassem, a preocupação levaria a comer plantas diretamente.
O cenário é usado só contra o veganismo.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que a ética precisa estar aberta à evidência: se um dia se descobrisse que plantas sentem, isso teria de ser levado a sério, e quem defende o critério da senciência não poderia ignorar a descoberta. Também acerta que nenhuma dieta está livre de causar algum dano.
Mas
Mas a descoberta não tornaria tudo equivalente. A forma de causar menos dano continuaria sendo comer plantas, e não animais alimentados com muitas delas.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois
Aprofunde no Questão de Ética
Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:
- Se plantas forem consideráveis, tanto faz comer animais ou plantas? Vol. VI, cap. 21
- E as plantas? Vol. IV, cap. 4
Referências
Ciência
- Plants neither possess nor require consciousness. *Trends in Plant Science*, 24(8).
- Redefining agricultural yields: from tonnes to people nourished per hectare. *Environmental Research Letters*, 8(3).
Filosofia
- The Edge of Sentience. Oxford University Press.
- Se plantas forem consideráveis, tanto faz comer animais ou plantas? In *Uma Jornada pela Ética Animal*, vol. VI.