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F11

"E se descobrirem que as plantas sentem?"

A resposta em uma frase

hoje não há evidência de que plantas sintam (A14). Mas, se um dia isso fosse descoberto, a conclusão não seria "então tanto faz comer animais". Seria o contrário: o critério da senciência passaria a incluir as plantas, e a forma de causar menos dano continuaria sendo comer plantas diretamente, porque os animais criados para consumo comem muito mais plantas do que nós comeríamos. A descoberta aumentaria o número de seres que contam; não diminuiria o peso dos que já contam.

Resposta curta

Hoje não há evidência de que plantas sintam. Mas, se um dia fosse descoberto, a melhor forma de causar menos dano continuaria sendo comer plantas, porque os animais que viram comida comem muito mais plantas do que nós comeríamos diretamente. A descoberta aumentaria o número de seres que contam; não tornaria aceitável explorar os que já sabemos que sentem.

Para crianças

Imagine que as plantas sentissem um pouquinho. Um porquinho, para crescer, precisa comer muitas plantas. Então, se a gente come o porquinho, as plantas que ele comeu também foram para a conta. Se a gente come as plantas direto, usa bem menos plantas. Mesmo nesse caso, comer plantas seria a escolha que machuca menos.

Devolva com uma pergunta

"Se as plantas sentissem, você escolheria a dieta que mata mais plantas ou a que mata menos?"

Como pode aparecer

"E se descobrirem que as plantas sentem?"
Conversa cotidiana
"Aí vocês vão comer o quê, pedra?"
Conversa cotidiana
"Quando provarem que a alface grita, quero ver o vegano."
Redes sociais
"Se tudo sente, por que não comer carne?"
Pergunta retórica
"Se a senciência vegetal for confirmada, o critério da senciência deixa de distinguir dietas."
Versão acadêmica
"Plantas também sentem." (que é A14)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"E se amanhã a ciência descobrir que as plantas sentem? Aí vocês vão comer o quê?"

Versão mais forte (steelman):

  1. P1O veganismo se apoia no critério da senciência: quem sente não deve ser prejudicado sem necessidade.
  2. P2Se as plantas forem sencientes, comer plantas também causará dano a seres sencientes.
  3. P3Como precisamos comer algo, seria impossível evitar dano a seres sencientes.
  4. CLogo, o veganismo perderia o sentido, e comer animais não seria pior do que comer plantas.

P1 é verdadeira. P2 e P3 seriam verdadeiras nesse cenário hipotético. O problema está na conclusão: de "não dá para evitar todo dano" não se segue "tanto faz quanto dano se causa".

O argumento é inválido: a impossibilidade de zerar o dano não torna equivalentes todas as escolhas.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    O argumento depende de uma passagem que não se sustenta:

    PassoO que afirmaSituação
    Se plantas sentem, toda dieta causa danoVerdadeiro nesse cenárioJá é verdade hoje em parte: toda dieta causa algum dano (H2)
    Se toda dieta causa dano, tanto faz qual escolherFalsoDanos podem ser maiores ou menores
    Logo, comer animais é aceitávelNão se segueA comparação de quantidades continua decidindo
  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. Hoje a hipótese não tem base.

    Biólogos vegetais concluíram que plantas não possuem nem precisam de consciência: não têm neurônios, cérebro nem razão evolutiva para isso (A14). Discutir o cenário é útil como exercício, mas ele não descreve o mundo atual.

    2. Mesmo no cenário, comer plantas causaria menos dano.

    Cerca de 36% das calorias das lavouras do mundo vão para a ração animal, e só cerca de 12% dessas calorias chegam às pessoas como carne, leite e ovos. Comer animais significa consumir, indiretamente, muito mais plantas. Se as plantas importassem, comer animais seria o pior dos dois mundos.

    3. Não poder zerar o dano não autoriza qualquer dano.

    Também não dá para evitar todo acidente de trânsito, e ninguém conclui que tanto faz dirigir com cuidado ou embriagado. A ética de quem leva a senciência a sério sempre foi reduzir o dano, e não alcançar a pureza (L5).

    4. O critério da senciência se fortalece, e não se enfraquece.

    Ele acompanha a evidência: se ela mostrasse que plantas sentem, elas passariam a contar, como passaram a contar peixes, polvos e caranguejos à medida que as evidências cresceram. Um critério que se ajusta aos fatos é exatamente o que se espera de uma ética honesta.

    5. Haveria graus a considerar.

    Se plantas tivessem alguma forma de experiência, seria preciso estimar a probabilidade e a intensidade dela, como se faz com insetos (A15). Isso pediria cautela proporcional, e não indiferença.

    6. O teste humano.

    Quando se descobriu que mais grupos de pessoas eram capazes de sofrer do que se admitia, a conclusão correta foi estender a consideração a elas, e não concluir que o sofrimento de ninguém importa.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Taiz et al., 2019Plantas não possuem nem precisam de consciênciaTrends in Plant Science, 24(8)
    Cassidy et al., 201336% das calorias das lavouras do mundo viram ração animal, e só 12% dessas calorias chegam à alimentação humanaEnvironmental Research Letters, 8(3)
    Questão de Ética, vol. VI, cap. 21Se plantas fossem moralmente consideráveis, comer animais continuaria sendo piorBase do ponto 2
    Birch, The Edge of Sentience (2024)Propõe precauções proporcionais à evidência de senciênciaOxford University Press
  4. d

    A melhor réplica: o veganismo perderia sua clareza

    A versão mais séria diz: o atrativo do veganismo é a linha clara entre quem sente e quem não sente. Se plantas sentissem, essa linha sumiria, e o veganismo viraria uma conta complicada de quantidades, sem a força moral que tem hoje.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    A clareza nunca foi o fundamento.

    O fundamento é não causar dano desnecessário a quem sente. Se a linha mudasse, a obrigação continuaria, apenas aplicada a mais seres.

    A conta já existe hoje.

    Defensores dos animais já pensam em quantidades: animais mortos na colheita, insetos, peixes. Isso não enfraquece a posição, a torna mais precisa (H2, A15).

    A conta continuaria favorecendo as plantas.

    Mesmo no cenário mais complicado, comer plantas diretamente causaria menos dano do que comer quem as comeu.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falácia do nirvana
Se não dá para zerar o dano, tanto faz o tamanho dele
Falsa equivalência
Trata comer plantas e comer animais como iguais em dano

Epistemológico

A evidência sustenta?

Hipótese tratada como fato
Usa um cenário sem evidência para decidir o presente

Moral

O critério é coerente?

Ignorar quantidades
Esquece que a pecuária consome muito mais plantas

Vieses

Raciocínio motivado

Um cenário hipotético é usado para dispensar a mudança no presente

Literatura geral sobre cognição motivada

Paradoxo da carne

Diluir o critério alivia a tensão entre gostar de animais e comê-los

Loughnan, Haslam e Bastian, 2010

Insensibilidade à escala

Ignora a diferença de quantidade de plantas consumidas

Ligado a K1

Extrapolações

O princípio testado é: "se não dá para evitar todo dano, tanto faz quanto dano se causa".

Se valesse para…TrânsitoToque para ver

Tanto faz dirigir com cuidado ou embriagado, porque acidentes acontecem

Ninguém aceita

Se valesse para…MedicinaToque para ver

Tanto faz um tratamento com mais ou menos efeitos colaterais

Absurdo

Se valesse para…AlimentaçãoToque para ver

Tanto faz comer plantas ou quem comeu muitas plantas

É a conclusão do argumento

Contradições

Não aplica a lógica a outros danos inevitáveis.

Ninguém conclui que tanto faz dirigir com cuidado porque acidentes acontecem.

Come mais plantas comendo animais.

Se as plantas importassem, a preocupação levaria a comer plantas diretamente.

Não trata plantas como seres que sentem hoje.

O cenário é usado só contra o veganismo.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que a ética precisa estar aberta à evidência: se um dia se descobrisse que plantas sentem, isso teria de ser levado a sério, e quem defende o critério da senciência não poderia ignorar a descoberta. Também acerta que nenhuma dieta está livre de causar algum dano.

Mas

Mas a descoberta não tornaria tudo equivalente. A forma de causar menos dano continuaria sendo comer plantas, e não animais alimentados com muitas delas.

Conexões

Costuma vir antes

A14 Plantas também sentemDa afirmação passa-se à hipótese
F1 E numa ilha deserta, você comeria um animal?Outro cenário hipotético para testar o vegano
F11este argumento

Costuma vir depois

A15 Onde traçar a linha? Insetos? Bactérias?Se plantas contam, pergunta-se onde fica a linha
L5 O veganismo não é 100% livre de crueldadeA impossibilidade de zerar o dano vira acusação

Aprofunde no Questão de Ética

Capítulos da coleção Uma Jornada pela Ética Animal, em acesso aberto, que discutem este argumento com mais detalhe:

Referências