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"Você comeria um animal que morreu de causas naturais?"
a pergunta tira de cena a principal objeção ao consumo de animais, que é matá-los e fazê-los sofrer. Por isso é uma boa pergunta filosófica, e a resposta honesta é que comer um animal que ninguém matou levanta problemas morais bem menores. Mas ela não descreve a carne que existe: animais mortos por doença ou por acidente não podem ser vendidos como alimento, por risco sanitário. E há razões para não comer mesmo assim, como as que nos fazem não comer humanos que morreram naturalmente.
Resposta curta
Boa pergunta: comer um animal que ninguém matou levanta problemas morais bem menores, porque o principal problema é matar e fazer sofrer. Mas ela não descreve a carne que existe: animais mortos por doença não podem ser vendidos como alimento, por risco sanitário. E eu também não comeria pelo mesmo motivo que você não comeria o seu cachorro, ou um humano que morreu de velhice: não vejo o corpo de alguém como comida.
Para crianças
Se o seu cachorro velhinho morresse dormindo, você ia querer comê-lo? Claro que não! Não porque ele ia sofrer, mas porque ele era alguém, e não comida. Os veganos pensam assim dos outros animais também. E, de qualquer forma, a carne do mercado não vem de bichos que morreram de velhice.
"Você comeria uma pessoa que morreu de causas naturais? Se não, é frescura?"
Como pode aparecer
"E se o animal morreu de velhice, você comeria?"
"Então come o cachorro atropelado na rua também."
"Se não comeria, é porque é frescura."
"Vegano não come nem bicho que morreu sozinho. É ideologia."
"O consumo de animais mortos sem intervenção humana não envolve dano."
"O animal já está morto." (que é K2)
A versão mais forte
"E se o boi morreu de velhice? Aí você comeria? Se não, é porque é frescura."
Versão mais forte (steelman):
- P1A objeção vegana ao consumo de animais se baseia no sofrimento e na morte causados a eles.
- P2Um animal que morreu de causas naturais não sofreu nem foi morto para ser comido.
- P3Se ainda assim o vegano se recusa a comê-lo, a recusa não se baseia no dano ao animal.
- CLogo, o veganismo é uma questão de gosto ou de pureza, e não de ética.
P1 e P2 são verdadeiras. O problema está em P3: há outras razões para não comer o corpo de alguém, e a conclusão confunde a escolha de uma pessoa com a justificação moral do veganismo.
O argumento é válido na forma, mas P3 é falsa: a recusa pode ter razões que não são capricho.
Resposta completa
- a
Reconstrução e diagnóstico
A pergunta separa duas coisas que normalmente vêm juntas:
Caso Houve morte causada? Houve sofrimento causado? Gera demanda por criação? Descreve a carne do mercado? Animal criado e abatido Sim Sim Sim Sim Animal morto por doença ou velhice Não Não pela morte Não Não O caso hipotético remove a principal objeção. Por isso, a questão moral que sobra é muito menor, e é honesto dizer isso.
- b
Onde o argumento quebra
1. A recusa pode ter outras razões.
Muitas pessoas não comem o corpo de quem amam, nem de humanos que morreram naturalmente, por respeito, e não por medo de causar dano. A filósofa Cora Diamond observou que não comemos nossos mortos, mesmo quando isso não prejudicaria ninguém, porque não os vemos como comida. Um vegano pode ver os animais do mesmo jeito.
2. Há também razões sanitárias.
Animais que morrem de doença podem transmitir patógenos. Por isso, a legislação de muitos países proíbe usar como alimento humano animais que morreram fora do abate, como a regulamentação europeia de subprodutos animais e a norma americana que condena animais encontrados mortos ou moribundos.
3. O caso não descreve a realidade.
A carne do mercado vem de animais criados e abatidos. A pergunta sobre o animal que morreu de velhice não justifica comprar essa carne (K2).
4. O teste humano.
Se uma pessoa morre de causas naturais, ninguém acha que recusar comê-la é "frescura" ou prova de que o respeito aos mortos é irracional. A mesma recusa, diante de um animal, não mostra incoerência; mostra que a pessoa estende aos animais o mesmo respeito.
5. A recusa de uma pessoa não define o veganismo.
Mesmo que alguns veganos comessem um animal morto naturalmente, e alguns filósofos considerem isso aceitável, o argumento contra a exploração continuaria de pé. O veganismo se opõe à exploração, e esse caso não envolve exploração.
- c
Dados e fontes
Fonte O que diz Observação Diamond, "Eating meat and eating people" (1978) Não comemos nossos mortos, mesmo quando isso não prejudica ninguém, porque nossos conceitos morais não tratam pessoas como comida Philosophy, 53(206) União Europeia, Regulamento (CE) nº 1069/2009 Regras sobre subprodutos animais não destinados ao consumo humano, incluindo animais mortos fora do abate Em português no EUR-Lex Estados Unidos, 9 CFR 309.3 Animais encontrados mortos ou moribundos são condenados e não podem ser usados como alimento humano Em inglês The Vegan Society, definição de veganismo O veganismo busca excluir a exploração e a crueldade contra animais O caso hipotético não envolve exploração - d
A melhor réplica: então o veganismo é sobre pureza
A versão mais séria diz: se o vegano recusa até o que não causa dano, sua posição é sobre manter-se puro, e não sobre os animais. Isso mostraria que o veganismo é uma identidade, e não uma ética.
- e
Por que a réplica não chega à conclusão
Respeito não é pureza.
Não comer o corpo de alguém por respeito é uma atitude moral comum, que aplicamos aos humanos sem chamá-la de pureza.
O argumento central continua intacto.
O que o veganismo critica é a exploração. Que um vegano recuse também um caso sem exploração não enfraquece a crítica ao caso com exploração.
Há veganos que aceitariam.
A recusa é individual e varia; o fundamento do veganismo não depende dela.
Erros de raciocínio
Lógico
A forma é válida?
Falso dilema
Generalização do acidente
Moral
O critério é coerente?
Confusão entre razões
Vieses
Categorização funcional
Animais de criação são vistos como comida em qualquer situação
Extrapolações
O princípio testado é: "se comer algo não causa dano, recusá-lo é frescura".
Se valesse para…Humanos mortos naturalmenteToque para ver
Recusar comê-los seria frescura
Ninguém aceita
Se valesse para…Animais de estimaçãoToque para ver
Recusar comer o próprio cão morto de velhice seria irracional
Ninguém aceita
Se valesse para…Respeito aos mortosToque para ver
Rituais funerários seriam caprichos
Contraria práticas de quase todas as culturas
Contradições
E não chama isso de frescura.
Pela mesma razão de respeito.
E não de animais mortos naturalmente, que não chegam ao mercado.
O que o argumento acerta
O que é verdade
Acerta que o caso do animal morto naturalmente remove a principal objeção ao consumo de animais, e é honesto admitir isso. Também acerta que alguns veganos recusam produtos animais por razões que vão além do dano direto.
Mas
Mas o caso não descreve a carne que existe, há razões sanitárias e de respeito para não comer corpos, e o veganismo não depende da escolha individual nesse caso raro. A crítica à exploração continua de pé.
Conexões
Costuma vir antes
Costuma vir depois