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Pelos Animais
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F10

"Você comeria um animal que morreu de causas naturais?"

A resposta em uma frase

a pergunta tira de cena a principal objeção ao consumo de animais, que é matá-los e fazê-los sofrer. Por isso é uma boa pergunta filosófica, e a resposta honesta é que comer um animal que ninguém matou levanta problemas morais bem menores. Mas ela não descreve a carne que existe: animais mortos por doença ou por acidente não podem ser vendidos como alimento, por risco sanitário. E há razões para não comer mesmo assim, como as que nos fazem não comer humanos que morreram naturalmente.

Resposta curta

Boa pergunta: comer um animal que ninguém matou levanta problemas morais bem menores, porque o principal problema é matar e fazer sofrer. Mas ela não descreve a carne que existe: animais mortos por doença não podem ser vendidos como alimento, por risco sanitário. E eu também não comeria pelo mesmo motivo que você não comeria o seu cachorro, ou um humano que morreu de velhice: não vejo o corpo de alguém como comida.

Para crianças

Se o seu cachorro velhinho morresse dormindo, você ia querer comê-lo? Claro que não! Não porque ele ia sofrer, mas porque ele era alguém, e não comida. Os veganos pensam assim dos outros animais também. E, de qualquer forma, a carne do mercado não vem de bichos que morreram de velhice.

Devolva com uma pergunta

"Você comeria uma pessoa que morreu de causas naturais? Se não, é frescura?"

Como pode aparecer

"E se o animal morreu de velhice, você comeria?"
Conversa cotidiana
"Então come o cachorro atropelado na rua também."
Conversa cotidiana
"Se não comeria, é porque é frescura."
Conversa cotidiana
"Vegano não come nem bicho que morreu sozinho. É ideologia."
Redes sociais
"O consumo de animais mortos sem intervenção humana não envolve dano."
Versão acadêmica
"O animal já está morto." (que é K2)
Versão disfarçada

A versão mais forte

Como se diz

"E se o boi morreu de velhice? Aí você comeria? Se não, é porque é frescura."

Versão mais forte (steelman):

  1. P1A objeção vegana ao consumo de animais se baseia no sofrimento e na morte causados a eles.
  2. P2Um animal que morreu de causas naturais não sofreu nem foi morto para ser comido.
  3. P3Se ainda assim o vegano se recusa a comê-lo, a recusa não se baseia no dano ao animal.
  4. CLogo, o veganismo é uma questão de gosto ou de pureza, e não de ética.

P1 e P2 são verdadeiras. O problema está em P3: há outras razões para não comer o corpo de alguém, e a conclusão confunde a escolha de uma pessoa com a justificação moral do veganismo.

O argumento é válido na forma, mas P3 é falsa: a recusa pode ter razões que não são capricho.

Resposta completa

  1. a

    Reconstrução e diagnóstico

    A pergunta separa duas coisas que normalmente vêm juntas:

    CasoHouve morte causada?Houve sofrimento causado?Gera demanda por criação?Descreve a carne do mercado?
    Animal criado e abatidoSimSimSimSim
    Animal morto por doença ou velhiceNãoNão pela morteNãoNão

    O caso hipotético remove a principal objeção. Por isso, a questão moral que sobra é muito menor, e é honesto dizer isso.

  2. b

    Onde o argumento quebra

    1. A recusa pode ter outras razões.

    Muitas pessoas não comem o corpo de quem amam, nem de humanos que morreram naturalmente, por respeito, e não por medo de causar dano. A filósofa Cora Diamond observou que não comemos nossos mortos, mesmo quando isso não prejudicaria ninguém, porque não os vemos como comida. Um vegano pode ver os animais do mesmo jeito.

    2. Há também razões sanitárias.

    Animais que morrem de doença podem transmitir patógenos. Por isso, a legislação de muitos países proíbe usar como alimento humano animais que morreram fora do abate, como a regulamentação europeia de subprodutos animais e a norma americana que condena animais encontrados mortos ou moribundos.

    3. O caso não descreve a realidade.

    A carne do mercado vem de animais criados e abatidos. A pergunta sobre o animal que morreu de velhice não justifica comprar essa carne (K2).

    4. O teste humano.

    Se uma pessoa morre de causas naturais, ninguém acha que recusar comê-la é "frescura" ou prova de que o respeito aos mortos é irracional. A mesma recusa, diante de um animal, não mostra incoerência; mostra que a pessoa estende aos animais o mesmo respeito.

    5. A recusa de uma pessoa não define o veganismo.

    Mesmo que alguns veganos comessem um animal morto naturalmente, e alguns filósofos considerem isso aceitável, o argumento contra a exploração continuaria de pé. O veganismo se opõe à exploração, e esse caso não envolve exploração.

  3. c

    Dados e fontes

    FonteO que dizObservação
    Diamond, "Eating meat and eating people" (1978)Não comemos nossos mortos, mesmo quando isso não prejudica ninguém, porque nossos conceitos morais não tratam pessoas como comidaPhilosophy, 53(206)
    União Europeia, Regulamento (CE) nº 1069/2009Regras sobre subprodutos animais não destinados ao consumo humano, incluindo animais mortos fora do abateEm português no EUR-Lex
    Estados Unidos, 9 CFR 309.3Animais encontrados mortos ou moribundos são condenados e não podem ser usados como alimento humanoEm inglês
    The Vegan Society, definição de veganismoO veganismo busca excluir a exploração e a crueldade contra animaisO caso hipotético não envolve exploração
  4. d

    A melhor réplica: então o veganismo é sobre pureza

    A versão mais séria diz: se o vegano recusa até o que não causa dano, sua posição é sobre manter-se puro, e não sobre os animais. Isso mostraria que o veganismo é uma identidade, e não uma ética.

  5. e

    Por que a réplica não chega à conclusão

    Respeito não é pureza.

    Não comer o corpo de alguém por respeito é uma atitude moral comum, que aplicamos aos humanos sem chamá-la de pureza.

    O argumento central continua intacto.

    O que o veganismo critica é a exploração. Que um vegano recuse também um caso sem exploração não enfraquece a crítica ao caso com exploração.

    Há veganos que aceitariam.

    A recusa é individual e varia; o fundamento do veganismo não depende dela.

Erros de raciocínio

Lógico

A forma é válida?

Falso dilema
Ou o vegano come, ou sua posição é capricho
Generalização do acidente
Um caso raro vira teste do consumo comum

Moral

O critério é coerente?

Confusão entre razões
Supõe que o dano é a única razão possível para não comer alguém

Vieses

Busca de hipocrisia

Encontrar uma recusa "incoerente" alivia a própria

Ligado a L4

Categorização funcional

Animais de criação são vistos como comida em qualquer situação

Bratanova, Loughnan e Bastian, 2011

Extrapolações

O princípio testado é: "se comer algo não causa dano, recusá-lo é frescura".

Se valesse para…Humanos mortos naturalmenteToque para ver

Recusar comê-los seria frescura

Ninguém aceita

Se valesse para…Animais de estimaçãoToque para ver

Recusar comer o próprio cão morto de velhice seria irracional

Ninguém aceita

Se valesse para…Respeito aos mortosToque para ver

Rituais funerários seriam caprichos

Contraria práticas de quase todas as culturas

Contradições

Não comeria um humano que morreu de causas naturais.

E não chama isso de frescura.

Não comeria o próprio cão morto de velhice.

Pela mesma razão de respeito.

Compra carne de animais abatidos.

E não de animais mortos naturalmente, que não chegam ao mercado.

O que o argumento acerta

O que é verdade

Acerta que o caso do animal morto naturalmente remove a principal objeção ao consumo de animais, e é honesto admitir isso. Também acerta que alguns veganos recusam produtos animais por razões que vão além do dano direto.

Mas

Mas o caso não descreve a carne que existe, há razões sanitárias e de respeito para não comer corpos, e o veganismo não depende da escolha individual nesse caso raro. A crítica à exploração continua de pé.

Conexões

Costuma vir antes

F8 E a carne que vai para o lixo?De outro caso sem demanda passa-se ao animal que morreu sozinho
F1 E numa ilha deserta, você comeria um animal?Outro hipotético para testar o vegano
F10este argumento

Costuma vir depois

K2 O animal já está morto.Do animal morto naturalmente passa-se ao do mercado
L8 Se veganos comem imitação de carne, querem carne.A recusa é tratada como frescura ou desejo escondido
L2 Veganismo é seita, religião.A recusa é tratada como pureza religiosa

Referências